Café da tarde

16709533_1338934872793480_1879015603_oPego a bolsa que foi esquecida no primeiro degrau da escada. A noite de quinta-feira não foi nada agradável. Coloco o casaco preto que foi relaxadamente deixado na maçaneta da porta do quarto. E vou.

As manhãs de sexta-feira são como todas as manhãs da semana, exceto as de domingo quando vou visitar a minha avó. Dou um “olá” tímido ao Seu João, o jornaleiro, escolho a revista que me parece mais simpática e uma bobagem, geralmente uma cocada, e desperto para o mundo.

Colocando os pés na calçada o dia começa. Corro até o escritório, café ruim, gente chata. Mas é lá que eu ganho pão. Apesar de todo o falatório, o ruído de vez em quando passa a ser interessante, dependendo do novo boato. Eu trabalho e finjo estar feliz.

Na hora do almoço eu digo à Dona Margarida para me buscar um salgado. A preferida é sempre a empada gordurosa de palmito. Não tive vontade de sair. Eu nunca tenho.

As 14h ele chegou. Dá uma olhada geral como de costume. Faz festa para a secretária, que deve ser pelo menos 5 anos mais nova do que eu. Passa pela porta principal, passa pelo corredor, me arrumo na cadeira, passa pela minha vida e não me vê. Ricardo trabalha no mesmo lugar há tanto tempo quanto eu o observo por detrás da tela do meu computador.

Penso que talvez pudesse dizer um “oi”, mas naquele dia, igual a todos os dias, resolvi me calar. E se ele soubesse que eu tinha um milhão de coisas a lhe dizer… Mas ele não sabe.

No meio da tarde saio para um café. Por favor um pingado, acendo um cigarro, ah! E mais um pão de queijo. As vezes eu me dava a esses luxos, não por fome, mas por solidão.

O dia estava tão frio que a luminosidade era quase polar.

Lembro das planilhas, das contas, da folha de pagamento que precisa estar pronta até o final do dia. Passo correndo e entro no escritório. Um papel dobrado foi deixado em cima do teclado.

Pulo pra cadeira e, como quem não quer estragar um momento mágico, observo as palavras, meu nome escrito em caneta preta. É dele… depois de tantos anos. Terá percebido meus olhares? Eu que nunca falei nada, que não consigo pronunciar meias frases perto daquele homem que tanto me fascina. Olhos castanhos, barba a fazer, um pouco grisalho para 36 anos… diz que me ama, quer que eu me arrume as malas, coloque o gato na caixa transporte e mude para o apartamento do 14º andar que fica na Praça Ozório. Não. A secretária anotou um recado, avisando que minha mãe ligara meia hora antes.

Terminadas as tarefas diárias, todos com dinheiro na conta, é quase hora de ir para casa. Ricardo passa pela minha vida, me arrumo na cadeira, passa pelo corredor, passa pela porta principal sem olhar pra trás. Ouvi dizer que, quando não está viajando, ele sai com a loira do RH.

Desligo o computador, pego a agenda e o celular. Sou uma tonta. Caminho em silencia em direção a liberdade da rua, que apesar de reconfortante, não tranquiliza meus pensamentos.

Em casa, a única companhia é o gato e a televisão. A sopa está quente e agora só falta o chá.

Os frascos da noite passada ainda estão sobre a mesinha espalhados.

O telefone fixo está desligado desde a sexta passada.

Dobro desesperadamente a carta que escrevi na noite anterior. Vou até a porta e coloco as chaves embaixo do tapete, tiro o gato pra fora. Tranco-me dentro daquelas paredes anônimas.

A água da banheira está quase transbordando. E ali estão os calmantes…

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